quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Uma da manhã

Uma da manhã, o sono não vem.
Já fumei todos os cigarros da casa.

Dark side of the moon já tocou duas vezes.

Normalmente me faz dormir.
Hoje não...

Desisto de lutar e levanto-me,
Alguns andares abaixo
uma breve caminhada de cinco minutos e compro meu cigarro.

A vontade de viver até passa nesses momentos
Mas a vontade de fumar não!

O frio, a noite, os transeuntes me geram sentimentos diversos.

Não sei bem quais.

Uma pitada de nostalgia acredito...

A fumaça me gera um pouco do prazer imediato que tanto busco.
Fumaça essa que me matará
Mas o que não o fará?

Desculpa do vício e vida que segue.

Mais cinco minutos de passos lentos no retorno.
Andares acima...

Encontro a porta do apartamento entreaberta.

Pulsação sobe rápido
Mas não é medo

Imaginei você lá, dentro do quarto.
Olhos marejados foram os meus naquele momento.

Pink Floyd ainda toca.
Tornando o ambiente carregado como só ele pode fazer.

O corredor até a porta ganha quilômetros de comprimento na imaginação doentia do pisciano.

Encontro tudo exatamente como deixei.

Vazio, paredes com seu branco mórbido.
Sim, branco mórbido, sem vida.

A bagunça de quem desiste aos poucos.

Encontro tudo como deixei
Exatamente

Mas agora tenho cigarros.





quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A poda!

Tive um breve pensamento sobre a poda!
Por que podamos uma árvore?
Geralmente por que o crescer livre dela não cabe em nossas expectativas, talvez, o espaço que lhe foi destinado seja menor que ela possa alcançar.
Ou simplesmente sua beleza natural não nos agrada, e moldados, com tesoura, afim de que ela passe a ter uma imagem mais agradável aos nossos padrões.
Mas, ela não para!
Terá que corta-la sempre, pois, é seu natural crescer, alcançar mais espaços, mais folhas, mais luz...
É uma luta de padrões ou/e necessidades.
E quando não houver mais como manter esse "equilíbrio" (a árvore ceder). Cortar é a solução. Afinal, não dá pra pra manter alguém que insiste em não caber, insiste em não se adequar as nossas expectativas. Opa alguém não, desculpe. Estávamos falando de poda de árvores...
Deixa...

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sistemas operantes!

Minha melhor aptidão é ser inapto

Mas olhe bem a frase acima, não é uma contradiçãozinha pra ficar bonita a escrita

É real.

Sou o pior dos vermes para os sistemas

Fantasio-me de útil de por um período...

atrasando, trabalhos, atalhos e vidas!

Seja eles quais forem, os planos se tornam temporários.
Os transeuntes usuários

e assim vou vivendo!
absorvendo vidas

até que se esvaia a minha!






segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Lindamente loucos

Oscilações mútuas
Sei o que está aí

Porque está aqui.

Bobo eu de desconhecer
Boba tu de se esconder

Não há rosto que escolha pra te representar

Sinto sua presença

Mentes borbulhantes
Borbulham juntas em busca da solução

Da inexistente solução

Mágica
Trágica

Ilusão

Mas que seja

Use o nome que quiser, a máscara que quiser.
Não há vergonha
Ou há
Sei lá

no inicio meio e fim

Ainda te vivo

Dia após dia te vivo, te sinto!

E não!
Isso não é nem um pouco belo!

Calculo ainda meus passos meus toques, meus pensamentos!

Cerceado
sigo
sempre

mesmo apartado por opções impostas!

mesmo com o punhal ainda fincado nas costas!

vivo o dia de ontem o ante-ontem e sigo voltado a cada novo amanhecer

se isso não for doença
se isso não for insano
a vida é um engano
e não há satisfação preparada pra mim

errei em não me adaptar ao mundo e suas condições
Criei em mim a possibilidade da felicidade dividida

e acabei só

era óbvio pra tantos e quantos viram

mas eu arrogante e prepotente me vi onipresente
no inicio meio e fim

(de algo que nunca aconteceu
______________________________que só existia em mim!)

Ney Dias

Mas obrigado por perguntar!



Me encostei no canto, la no fundo.
Eram dez horas
Elevador vazio
Garagem vazia
Sábado a noite todos tem o que fazer

A pequena pressão da subida da máquina
Me fez ceder
Escorreguei nas partes de lata gelada
Fui até o chão

As pernas não aguentaram mais manter todo o corpo
Todo o fardo

Claro que a pressão foi uma desculpa

Precisava encostar ali naquele momento
Olhei pra baixo
Fitei o chão.
Próximo, muito próximo

Só torci pra que ninguém entrasse até meu andar
Não teria força pra manter a compostura

A porta se abriu

Ouvi um boa noite.
Voz de mulher, saltos, só vi os saltos

Não levantei a cabeça, respondi o um boa noite abafado por entre os braços apoiados nos joelhos.

Você está bem?

Mais uma frase veio dela

Um pouco zonzo, mas estou!

Foi o que me veio à mente.
Talvez tenha soado rude o suficiente pra finalizar o breve diálogo que foi tentando.

A porta abriu

Gerou a dúvida se era meu andar

Teria que levantar a cabeça, o fiz.

Era...
Um solavanco e me levantei.
Não a olhei nos olhos, não sei seu rosto, nunca saberei.

Mas obrigado por perguntar!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Perdão, perdi o encanto

Perdi o apreço pela vida.
Não!
Calma!

Ninguém aqui está falando de morte.

Apenas de apreço
Carinho

Sabe aquele a mais
Aquele gostinho de quero mais
quero muito, quero tudo.

Então perdi

Se tenho que seguir
que seja

Vivemos
Viveremos
Se viemos
Fiquemos

Mas
Desculpe vida
Segue aí ao meu lado
Sigo aqui no meu canto

Junto estaremos
Vidinha
Mas por ti
perdão
Perdi o encanto

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Entre_linhas

Talvez meu maior erro foi não ter lido as entrelinhas da vida, ou ter lido apenas as palavras escritas com todas as letras possíveis.

Não que mentiram-me, não isso, mas o que me foi omitido pelas palavras, criei a minha maneira.
A verdade sempre esteve ali, firme e forte como tem que ser.
Sim, ela sempre esteve ali, e acreditei no que quis acreditar.

Na possibilidade do impossível.

E isso chamo no mínimo de loucura!
Insanidade talvez, para encontrar uma palavra mais aceitável socialmente.

Nasci com uma inteligência que me satisfaz, e tenho consciência disso.
Mas fiz questão de não usa-la a meu bel prazer.

Escolhi prazeres imediatos.
Sonhos inalcançáveis e mentiras sinceras, e descobri com o tempo que elas não me interessam.

Cada gota de esperança foi usada pra afirmar e reafirmar a falsa oportunidade que me foi dada.

Afinal.

Quem poderia manter essa loucura que não fosse eu mesmo?

E agora?

Não existe a possibilidade nem de contar o filme que fiz papel de figurante achando protagonizar.

Vida incrível!
O que posso sentir hoje que não seja gratidão a cada gota dos sentimentos ruins que sinto agora?

Saboreio a derrota com lentidão

Massacro-me com indícios de crueldade.
A fim de gerar todos os anticorpos possíveis a doença que agora sofro.

E se com isso não acabe com o analfabetismo de ler entrelinhas.

Desisto da leitura. Porque o texto que se apresenta na íntegra nunca é o real.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Insatisfação de estimação

Mentiram pra mim.

Me disseram: preguiçoso!

Mas isso não sou, nunca fui na verdade.
Só que meu corpo se recusa a fazer o que essa vida mesquinha me oferece de opções.

Uma luta vã.
Uma busca tola.
Uma vida que exige.

Porra!

Eu só não quero isso. Quero aquilo e aquilo outro.

Cansado de ser parte do sonho alheio.
Do sonho Americano ou de qualquer merda que disseram que seria um sonho viver.

Preguiça é o cacete.

O que me fode é essa merda de sociedade impondo um monte de regras.
E pior.
Essas regras são respaldadas quando um chama de valores. E todos dizem amém.

Moral, ética...

Se, sentir-me complemente insatisfeito e com ânimo só pra rastejar em meio esse lodo hipócrita é preguiça?

Sim, tenho preguiça de todos vocês.

Desculpe, não chamo de preguiça.

Chamo de insatisfação de estimação.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cheiro de urina

Hoje notei que ainda sinto-me aliviado com cheiro de urina.

Uma parada a tarde num bar fétido.

Uma inocente Coca-Cola.

Como se houvesse possibilidade de alguma inocência na minha mente.

Um dia de cão.
Uma semana de cão.
Um mês de cão, sei lá.

E minha parada a tarde, é num bar fétido.

Atendimento precário.

Poucas pessoas.
Um homem tomando uma pinga as três da tarde.
Outros conversando na mesa plástica, com sua cerveja gelada.
Quantas haviam tomado?
Era a primeira, a segunda?
Não sei. Procuro alguém que me atenda.

- Uma coca por favor.

Trocados amassados no bolso, deixados em cima do balcão, e banheiro.

Aquele cheiro.

Fechei a porta com dificuldade.
Velha, porta velha.

Aquela olhada ao redor.

Toalha de pano, pia encardida.

E pronto.

Estava no ambiente seguro de alguns anos atrás.
Um pequeno mundo podre onde me senti muito bem durante um tempo.

Um metro quadrado onde não há nada além de mim e minhas intenções.

Lembrança olfativa de um submundo ainda vivente no eu.

Uma passagem para outro mundo.
O mundo mágico da loucura.

Abro a porta.

Saio de lá.

Minha coca aberta.

Carro alheio na porta.

Fumo um cigarro.

Vida real.

Saudade do cheiro de urina.

Ney Dias

terça-feira, 28 de junho de 2016

Lembrança

Aos poucos.

Palavras não saem como deveria.
Estou aqui montando frases a esmo.

Seu abraço...
Meu abraço...
Nosso abraço...

Ele foi o primeiro que sumiu!
Um ano...
Dois...
Não sei mais.
Pra mim...
Dez, vinte!

Foi aos poucos.
Um tchau de cada vez.

Não sei se foi melhor ou pior.
Se há...
Pior ou melhor.

Só sei que a dor existiu e existe.
Hora amena.
Hora asfixia, sufoca, arranca lágrimas.

Volto minha mente ao abraço.
Isso porque não a deixo me levar ao resto.

E que resto.
Tudo o que restou em mim foram as risadas.
As piadas.
Os carinhos.

O tempo me faz enxergar o que nunca quis ver.
O amor se esvair.

Perdi.

E ei de entender isso!
O tempo é implacável e mostra claramente que não és mas parte do meu futuro.

Mas guardei esse passado.
Guardarei esse passado.
Sempre.

Digo-lhe o que não acreditará...

Se quiseres voltar, não a perderei de novo.

Se não...
Lhe amarei a distância, e não acabará.

Não vou deixar de te amar.
Só estou aprendendo uma outra forma de o fazê-lo.

Ney Dias

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Persona

O medo me paralisa

Minhas palavras vãs
Corpo padece

Calei-me

Um chumaço de estranheza mora em mim

Calei-me

Recolher-me em mim talvez seja só o que resta

Acordar virou rotina
Dormir... Faz parte da vida...
Existir! É isso!

Calei-me

O medo me paralisa

Pancadas contínuas
Surras adjacentes

A diminuição do ser!

Dizer sem dizer é a entrelinha do calar!

refutativo poder de anulação

Persona necessária para sobrevivência

Perdi as palavras e contentei-me com o sorriso
Esse tal de sorriso amarelo que resolvi carregar

Ficou tão simples sorrir agora
Ficou leve
Não preciso de motivos para...

Não há grandes motivos para...

Não há motivas para...

Mundo não lhe apresento mais palavras
Apenas os dentes.




quinta-feira, 26 de maio de 2016

Você não vai estar só!

Hoje eu te olhei...
Uma foto digital de celular.
Era o que eu tinha!
Eu te olhei!
Deu-me um profundo desespero!
Tão pequena.
Tão amável.
O mundo não será amigável meu amor.
O mundo não será amigável...
Ele vai te cobrar, certa ou errada, ele vai.
O mundo, durante milhares de anos, foi preparado pra ser agressivo com você pelo simples fato de ter nascido mulher.
Meu amor.
Queria eu, ter o poder de te proteger dele.
Queria eu ter...
Mas... Hoje...
Honestamente não sei o que posso fazer pra isso.
Já fostes vítima.
Tão cedo, e já fostes...
Minhas lágrimas agora estão postas.
Pelo simples fato de escrever isso.
O que me consola.
Existe hoje inúmeras mulheres tentando preparar um mundo melhor pra você.
Um mundo que será menos agressivo.
Ou pelo menos, menos tolerante a agressividade que existe.
Sinto... Em mim, que pouco faço!
O pouco que faço ainda é pra mim.
Pra que eu me torne alguém melhor.
E com esse melhor. Faça algo melhor pro todo.
E quero muito que esse todo seja o seu todo.
Temo por você!
Mas não quero que tema.
Nasceste mulher, e isso é bom sim.
Isso é ótimo!
Não deixe que nós homens te digam o contrário, através das religiões, das leis... 
... do humor, do amor.
Esse mundo não é seu, eu sei...
Mas muitas estão lutando pra você agora...
Agora... enquanto ainda brinca, ainda não faz nem idéia das mazelas que há ao seu redor.
Eu vou apoiá-las.
Hoje é o que me cabe.
E ainda mais, vou apoiá-la, sempre...
Seja qual for o tamanho de suas asas...
E qual for à direção que elas batam.
Hoje o mundo foi cruel com uma delas, meu amor...
E ainda esse mesmo mundo, tende a culpá-la pra eximir-se da própria culpa.
Já montamos tudo a nosso favor.
Sistemas de privilégio em todos os âmbitos sociais.
Mas tem umas minas...
Você vai ver...
·... arrebentando com tudo isso!
Cresce amor...
Cresce forte!
Você vai precisar!
Mas não vai estar só!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ansiedade

Meu coração reage por instinto.
Ele é meu primeiro alerta.
Palpitação mostra que estou acuado.

Respiração ofegante.
Suor.
É a ansiedade batendo a porta.

Que porta?

Aquela que criei.
Abri e não atravessei.
Voltei.
Tranquei...
E fiquei olhando a um passo de distância como se quisesse saber o que tem do outro lado sem arriscar meu corpo físico.

Porque minha mente...
Ah! Minha mente está lá!
Libertando inúmeros hormônios que não faço ideia pra que servem além de me deixarem assim.

Isso é normal?
Não sei...
É normal em mim...
É comum pra mim...

Uma indisposição em fazer o que tenho que fazer...
Criando ainda mais ansiedade por ter que fazer...

Uma cela;
Uma jaula;
Uma limitação apenas física!

A mente, anseia.
O corpo, padece.
A vida...
Parece...
A paz, desaparece!

Ney Dias

domingo, 20 de março de 2016

Minha vida foi tomada intensamente por dores muito cedo, mas eu não imaginava que aquilo era dor.



Minha vida foi tomada intensamente por dores muito cedo, mas eu não imaginava que aquilo era dor.
Vivia sempre em uma enorme insatisfação. Nada que me foi oferecido pela vida ao nascer me era suficiente, família, colegas, situação financeira e até o corpo físico, eram estranhos a minha vontade.
Uma saída imediata, era, começar viver uma mentira, uma negação de realidade que me trazia mais paz.

Meus medos, anseios e limitações ficaram escondidos atrás de um personagem que acreditava que tudo era normalmente possível viver através da imaginação de que havia vivido ou iria viver.

Histórias vividas por outros começaram a fazer parte da minha vivência, e serem compartilhadas com colegas com a certeza de que com elas... eu seria mais interessante e pudesse ser alguém que eu sonhava ser.

Com o tempo, isso virou algo comum, não me causava grandes problemas confesso, porém, algo mágico aconteceria na passagem da minha infância para a pré adolescência, eu conheceria drogas.
Com isso, todos as minhas fantasias começam a ter um fundo maior de verdade. Eu começava a realmente viver algo diferente de todos os que eu conhecia, me sentindo assim, incrivelmente especial.

Foram dezessete anos fazendo uso, horas menos, horas mais, meses sem maiores problemas e outros com completo descontrole em todos os âmbitos da minha vida.

Até que o último ano, foi suficientemente aterrorizante pra que eu buscasse ajuda em me recuperar.

Quando me deparei com um grupo de pessoas que dividiam os mesmos sentimentos, as mesmas dores e os mesmos problemas que tinha, me senti acolhido, abraçado e senti que minha vida poderia tomar outro rumo, só não imaginava que nesse grupo havia alguns comportamentos; de alguns indivíduos, que teriam que ser evitados.

Algumas coisas me fizeram entender que minha decisão em parar de usar drogas lícitas e ilícitas seria apenas o começo de uma árdua jornada de mudanças, mas nunca imaginei que seria algo tão interno.

Como grande parte das pessoas, tudo é visto com muita superficialidade, e eu não era diferente, mudar alguns hábitos, amigos, frequentar novos lugares e ter força de vontade, era o que esperava aprender com esse grupo e depois, "voilà" o pesadelo acabou... e sou uma pessoa livre das drogas!

Mas logo nos primeiros dias percebi que a coisa não era tão simples.

Grande parte das pessoas que estavam ao meu redor, digo, grande parte mesmo mais de noventa por cento, não era a primeira vez que estava em uma clínica, e pior, também não era a segunda vez, fiquei abismado quando vi que um conselheiro que me parecia muito inteligente e focado em estar "limpo", já havia sofrido seis intervenções.

Isso me fazia pensar todo o tempo que não era aquilo que eu queria, então comecei a investigar, não o que precisava pra parar de usar, e sim, permanecer limpo, afinal de contas, parar eu já tinha parado!

As pessoas que mais eram entrevistadas por mim, as pessoas que mais eu questionava eram as que passaram por esse processo que chamamos de recaída, e em um posicionamento unanime, todas me disseram: A recaída começa no estado emocional! Meus sentimentos me fazem fazer coisas que não quero!
Isso mudou completamente minha estratégia de recuperação, meu problema não era a droga e sim a maneira que meus sentimentos me dominavam e mudavam o rumo da minha vida.

Mas e agora? O que fazer?
- Não controlamos nossos sentimentos!

Essa foi a primeira mentira que deixei de acreditar, com a mente muito aberta e um foco, me deixei aprender que SIM, nossos sentimentos são controlados, minimizados e até extintos quando aplicado meu desejo de transformação na minha maneira de pensar em relação a tudo e a todos.
Todas as minhas justificativas cairiam por terra naquele momento, e uma dor maior que todas que havia sentido até então tomou conta de meu interior. Naquele momento me senti completamente nu diante da vida, nenhum comportamento meu era mais justificável pelo meu sentir e isso me mostrava apenas a pessoa que eu era, sobrava apenas meu caráter e minha palavra pra ser avaliada.

Foi aí que comecei a avaliar os erros dos outros, afim de que não cometesse os mesmos, e sim, era uma realidade, sobrou vontade, sobrou verdade, sobrou teoria, mas faltou mudança. Uma honesta mudança interna da maneira que era vista e avaliada a vida, os outros e o próprio individuo.

Todos transferiam as responsabilidades de suas decisões para qualquer outra coisa, menos para si próprio, e se ajudavam entre si, aprovavam as transferências de fracasso com palavras de incentivo ou com identificação dos erros como comuns em pessoas com nossa limitação (doença), criando um círculo vicioso de comportamentos destrutivos e apoio mutuo, que amenizava a consequência, afinal, se sou eu condicionado a sentir e agir assim, por que a consequência seria uma responsabilidade minha?

Ouvi em reuniões:

Deus me fez para ser infeliz desde meu nascimento? Não tive a oportunidade de ser normal nem um dia sequer!

A recaída faz parte da minha doença, preciso colher o melhor dela e aprender com isso!

A meio social em que vivo nesse momento, me impossibilita de qualquer mudança atualmente!

A sociedade me empurra constantemente a ter esses acessos de raiva, e com isso não me controlo.

Mentiram pra mim, me disseram que seria de outra maneira!

Meu (minha) companheiro(a) não me entende, e acaba atrapalhando meu processo.

Minha família esquece da minha doença e traz bebida pra casa.
E o pior, era uma maioria, os números não mentiam, 3% apenas das pessoas que procuravam ajuda, realmente se recuperavam e dessa minoria, 70% voltariam a usar nos próximos 5 anos do inicio da abstinência, era uma taxa de fracasso altíssima, e eu não queria fazer parte dela.

Então, a primeira coisa que constatei era que, precisava me livrar de um passado de auto-engano constante, e que mesmo livre das substancias, eu continuaria tentando mentir pra mim, e criar uma realidade paralela que amenizava a dor de ser eu mesmo.

Quando errava, precisava admitir cada erro, sem transferir a culpa para tudo e para todos. E lidar com a consequências deles, seja eles causado por um mal juízo, má interpretação, má intensão ou movido por sentimentos, esses erros eram meus e de mais ninguém.

Percebi que alguns membros, usavam da própria literatura para amenizar esses erros, temos sim predisposição, prevista em nossos guias, a sermos intensos e agir em cima dos sentimentos, colocando de lado, focos e objetivos inicias, e não somos culpados disso, mas temos também a responsabilidade de aprender e se adequar social e eticamente  afim de não prejudicar ninguém e nem a nós mesmos em nome dessa predisposição.

Engana-se aquele que pensa que dependência é apenas de substâncias químicas lícitas e ilícitas, uma dependência é tudo aquilo que te limitam e te força a viver indo contra seus valores, focos e abjetivos. As vezes forçando a troca do objetivo, criando uma falsa aceitação para amenizar a dor do fracasso, fracasso esse, que já era claro no inicio da tentativa de acerto.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Moça feminista

Moça, feminista
desculpe a indelicadeza.
Mas fiz a macheza.
De lhe comprar uma flor.

Acredito no seu feminismo...
Não quero ser tosco,
E nem quero que seja machismo...
Mas só quis ter um ato de amor

Moça feminista
Não preocupe-se, não busco seu perdão
E longe de ser algum tipo de manipulação

É só um mimo
Um agrado
Nada calculado ou planejado

Me perdoa esse romantismo
Mas diferente de muitos...
Não há nem um pingo de cinismo,
nesse ato singelo...
Lhe ofereço essa bela rosa
Com um sorriso amarelo
Só tentando lhe arrancar um brilho no olhar

Confesso que sei, que pra ti, nem há tanto valor.
Pelo seu jeito de sempre...
(Longe de mim... Não quero que mude...)
...de não gostar muito de flor.

Conheço seu jeito feminino, lindo, de ser mulher, meio menino.
E foi sua força feminina, que me deixou respirar mais livre nesse mundo macho e ser menos masculino.

Ah! Moça feminista!

Fiz assim no papel...
Pra te mostrar que não foi em vão;
E que dei a devida atenção
As várias vezes que me pediu
Algo por mim criado...
E escrito a mão.

Demorei mas...
Tá aí, minha letra!
Meio garrancho, como diziam os antigos...
Acompanhada de uma rosa
O símbolo do romantismo

Romantismo machista
Mas encarecidamente lhe peço
Que abra uma exceção na sua lista...
E...
Não me entenda mal
Mesmo que agora não seja algo normal
Espero que veja...
Isso como uma gentileza

Um agradecimento
Porque seu feminismo me ajuda a dissipar o tormento que fui criado
Mas agora amado
Por esse amor diferente
Sigo feliz e contente
E um pouco aliviado

Por isso o afago...
...em forma de flor

Moça feminista
Ela vai morrer eu sei
E nada vai mudar ou melhorar
Mas se agora, só agora
Ela ajudar a lembrar, o tanto que te amo
A vida dela valerá a pena
e a minha também

Ney Dias 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Só isso só

Era só um celular
Uma luz anestésica na escuridão do quarto

Era só um quarto
Uma atmosfera nebulosa cheia de dores

Era só dor
Câimbras crônicas sem solução

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

No meu quarto...

No meu quarto tenho insônia

Não tenho insônia

No meu quarto tenho insônia

Durmo bem

No meu quarto tenho insônia

Trabalho duro, chego cansado

No meu quarto tenho insônia

Acordo pingando de sono

No meu quarto tenho insônia

Não preciso de remédios pra dormir

No meu quarto tenho insônia

Dirijo trinta e dois quilômetros até o trabalho com sono

No meu quarto tenho insônia

Bocejo no caminho de volta

No meu quarto tenho insônia

Talvez, se esse quarto fosse meu eu dormiria.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Não se dorme na sala

Sofaziei
Sim sofaziei
Com o tempo fui entendendo as promessas.

As promessas de solidão dadas por amores.

Perdi de tempos em tempos as camas que me couberam.

E então o sofá me abraçou.

Prometeram-me a solidão do sofá

E então o dia chegou.

Não me houve escolhas restantes. Sofaziei.

Minhas noites já não tão belas.
Tornam-se apenas um momento de descanso obrigatório.

Não há local aconchegante, só o sofá da sala sem forro.

O olhar perdido pra cima, me mostra as telhas velhas e fios coloridos em uma desorganização sem beleza.

Sofaziar me trouxe a solidão mais acompanhada que já tive.

Os aquários barulhentos... a noite...

O som que é imperceptível durante o dia...
Torna-se incovenientemente alto e constante.

Sofaziei.
Escondi minha tristeza em um lençol fino.

Que também servia pra me livrar dos pernilongos que entravam pelas frestas da casa velha.

Uma feia casa velha.

Que não tinha lembranças boas, e nem cômodos grandes onde corri criança.

Minha vontade é desligar as bombas de ar...
Mas os peixes morreriam.

Não posso fazer isso!

A TV desligada, reflete em seu tubo enorme minha imagem deitado no sofá.

Um corpo gordo, desorganizado e sem beleza...

Meu corpo estranho.

Um corpo estranho em todos os lugares.
Nada que criei foi forte e duradouro...
Só na minha cabeça.

E essa é poderosa na criação de justificativas...

Justifiquei até erros alheios...
Bobo eu!

Dormi ao lado de pessoas que me sofaziaram sem pensar duas vezes.
Ou pensaram... Duas, três, quatro... Mil vezes...

Mas no final, sofaziaram-me!

Me deixa calar!

Que o sofá ainda me resta...
E isso é o suficiente pra quem percebe que não presta.

Ney Dias

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Pedido de socorro (Sela)

Foi tão rápido...
Não vi o que aconteceu.
Passou!
Minha vida levada pelos tropeços...
Minhas mãos tatearam o chão;
Mas não evitaram a queda.

Mas não foi o tombo que me arruinara.
Foi onde caí.
Foi de onde caí e onde reabri os olhos...
Não havia como voltar e passar por onde passei enquanto tentava me equilibrar.

Perdi tanto tempo evitando o chão.
Que me estabaquei em um chão que não queria.

Era um lugar estranho.
Um futuro não escolhido.

Um lugar
Um lugar

Não era o lugar,  muito menos o meu lugar
Era um lugar...

As roupas.  As cores.  As casas.  As festas...

Nada mais,  nada mais me era familiar.

Não havia nada ali. Além de tudo o que deveria estar ali,  entende?

E o que poderia se fazer diferente pra mim, era igual, apenas igual de uma maneira diferente.

E estava lá.
Não havia nada a ser feito além de aceitar.

A dor intensa da raiva me tomou.
Uma energia tóxica que movia poluindo toda a alma,  o corpo...  o ser.

Gritei meu deus!
Não que chamasse um deus.  Mas como uma frase pronta de desespero que aprendi desde criança.

Não havia um deus. Não há um deus!
Eu sabia...
Mas não havia outra coisa a ser dita.

Minha vida havia me traído. E eu não percebi a tempo de mudar minha condição de vítima. Ou talvez não imaginava que poderia um dia estar nessa condição.

Peguei-me defendendo-me de crimes que não cometi.
Ou que cometi por acreditar que não havia outro jeito.

Como um indígena sendo evangelizado pra evitar uma ida a um inferno que não existe.
Mas que se torna real e amedrontador a partir daquele momento em diante.

Aprendendo que sua nudez era um pecado.
Sem ao menos ficar claro o porquê.

Me vi ali. Aprendendo como seguir uma seita de horrores limitantes e de dor intensa.
O que pode ser pior para minha alma livre?

A morte?

Nunca!  A morte seria algo infinitamente menos sacrificante  do que a sobrevida oferecida por mim a mim mesmo.

E não há recuo.  Não há recusa.

Travei a tranca da cela e joguei as chaves por entre entre as grades.
Uma cela enorme.  Admito,  Mas uma cela!

Sentarei até encontrar uma solução, com o medo de não haver nenhuma.
Será que ainda não caí?

O tropeço continua longo o contínuo?

Será que o chão me assusta tanto que o evito com todas as forças. Em um momento que minhas forças teriam que ser focadas em fincar os pés na realidade?

Preciso realmente sentar...
Meditar...
Talvez a sela não seja tão ruim.

Ney Dias