quarta-feira, 23 de abril de 2014

Apego

Dividido estou entre pequenos pedaços de esperança.
Tecos, partes, partículas !

A cada um entrego uma amostra do meu ser.
Querer juntar-me? Nunca!

"Leva-me essa" parte consigo e não traga mais, carregue-a, mesmo que nem sinta mais seu peso, que nem espaço ocupe na sua bagagem.

Que o cheiro podre não incomode mais.
Que o sorriso morto levante e ande em direção a olhares merecedores.

Que sejam muitos, que sejam importantes, que sejam válidos até que sejam.

E só eu, apenas eu sinta o pedaço que foi levado.

Quando me tocar, sentirei a falta do que um dia foi de minha posse, e que hoje já não tenho mais ao alcance de minhas mãos, olhos e alma, pois dividi!

Que nunca jogue fora, pois não é sua propriedade, está cuidando pra mim de algo que não é mais meu e nem seu algo sem dono por abandono!

NeyDias

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Nunca a última ceia.

Não quero, não abro mão.
Sou sim um sonhador, que me perdoem os mestres e pensadores.
Crio minhas ilusões, as amo, me apaixono.

Me alimento do irreal do lúdico, oh vida chata, e morna.
Deixe-me adoça-la, criar em ti algo mais amável do que a dura realidade mal cheirosa que me é oferecida.
E aos meus, se quiserem provar comigo o doce do imaginário...
Será servido o banquete, e apreciado com todos os sentidos.
E aos sem boca, triste fim, real.
E aos sem boca, resta apenas o cheiro que não me agrada as narinas.

Lindo, é a liberdade de não cheira-lo, de criar meus aromas.
Ah! Não posso empurrar-lhe garganta a baixo, sonhos meus.
E nem levar seus dedos cegos a mesa posta.
Meu rosto se entorta, com ar de tristeza e desdém. Por não sentares a mesa...
E nem degustar o que preparei. Com tanto amor, arte, e criação.

Se preferes vestir-se de criatura, triste fim, real.
Me encanto e me moldo para caber nas vestes de criador,
mesmo eu não sendo nada além de nada, crio. E quem não pode?
Os sem boca, as criaturas, os moldados, os prontos...
Chatos niilistas, pobres niilistas.
Estão prontos!
Mal sabem que prontos nunca serão, e a prontidão os deixa inacabados.

Crio, me crio, crio um, crio outro, volto pra terminar o eu.
Esqueço do outro, mas pronto nunca...
as vezes durmo pronto e acordo inacabado, e vamos nós, eu e os criados que criam buscar, a nova fórmula pra sonhar e adoçar a vida fétida.
O baquete está servido, sente-se se quiser.

Ney Dias



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Corta

A lâmina amar pode te ferir, ou ajudar a se alimentar.
Escolho cortar as coisas certas. Repartir...
Não sinto mais o sangue, o sabor férreo do sangue.
Retirei a poucos dias meu próprio fluido do meu paladar.

Amar, leve.
Amar, leve.
Amar, leve.

Onde você está agora? Qual o gosto em sua língua?
Escolha o doce...
Penso, logo existo, logo sinto, logo penso que penso por sentir.
Mas não! Sinto por pensar, acreditar sem gnose.
Sem me desconceituar, rendo-me ao arqui inimigo do meu crescer.
Maldito ego, inflama, me torna dor, pus e tirania.

Dramaticidade, minha forte inclinação.
Sou dotado disso, daquilo e de outro, dotado de mais do que menos.
Meu amor por ti será sempre seu. Seu amor por mim será sempre meu.
Mas não vivê-lo o transformará em órfão, seus pais o renegam.
Imaturo e infantil, largado para definhar, aos lobos jogado.

Estou aqui, esperando, querendo e amando.
Vire a lamina para o lado correto. Seu sangue não te alimenta.
Ataque os lados, a frente e atras, mas vire a lamina.
Já sabe que corta.

Ney Dias

sábado, 5 de abril de 2014

Profenid, tramal

Sinto o doping dos remédios. Analgésicos que tiram a dor física da ferida aberta por um bisturi metálico, afiado e frio.
Mas seu poder de alívio não ajuda nos cortes feitos pelas palavras ditas.
Sua mágica não tem alcance ao poderoso veneno do dizer.
E agora tudo muda, não há mais a possibilidade de aguentar algumas coisas, ou não há mais a possibilidade de acreditar em algumas coisas.
O encanto acabou, as máscaras cederam, o sonho foi assassinado pelo injusto mentir interno.
Suas migalhas já não alimentam o ser.
Tramal, tá mal... normal...
Até acreditei na alegria. Mas o orgulho é mais forte, a disputa é muito mais forte. São forças esmagadoras de competição. Armas pra um capitalismo onde a posse é gente, onde o imóvel fala, onde o presente sente.
Palmas pra escravidão, palmas pra hipocrisia que diz que não há escravos sendo que escravagista se vestem em peles de libertadoras.
Alguém me manda um analgésico pra essa dor.
Um remédio pra frustração, um anestésico para suportar o corte da faca amiga, da faca amante, da faca amor.

Ney Dias

terça-feira, 1 de abril de 2014

Sem título

Sempre me perguntei... Se seria melhor ser cego desde o nascimento.
Ou perder a visão ao longo da vida.
Se as imagens na memória, atrapalhariam na vida, trazendo a tona a saudade de um tempo de luz.
Ou ajudariam para todo o tempo de existência do ser. Mesmo que não visse, saberia a real imagem das coisas.

A vida resolveu mostrar-me, furando-me os olhos.
Me trazendo a luz, e sangrando minha visão. Agora terei minha resposta.
Provei o doce da vida, lambi e senti o prazer do vazio tapado pela primeira vez.

Mas como um filho morto em seus quinze dias de vida, seu corpo frio no berço.
O olhos não aguentaram, e sangraram... Escorreram pela face até o queixo.

E escuridão retomou o seu lugar de origem, o vazio retornou, e retomou ao lugar que sempre foi seu.
Vou tatear, sentir os contornos, os cheiros, mas com a imagem na mente.
Lembrar dos dias... Dos sorrisos... Das lágrimas... Dos toques...

Antes morto cedo. Cego cedo...
Antes morrer ao amanhecer...

Ney Dias