quarta-feira, 10 de junho de 2015

Logo eu, vil...

Só eu sei quantos textos não escrevi.
Quantas angústias resolvi...
Sem usar-te.
Mas não me abandone.
Quantas palavras engoli, que o refluxo artístico me trazem a tona.
E o azedume me queima a garganta e estraga meu paladar.
Quero que vá.
Quero que fique.
E quando me dá bom dia, batendo a porta de dentro pra fora. Te quero dormindo...
Quando me assombra de cigarro em cigarro...
De café em café...
Te quero quieta.
Mas você grita. Em mim...
Mas você mora. Em mim...
Nas luas cheias, nas minguantes, nas estações do ano.
Na agonia do outono a morte no inverno.
Na esperança renovada da primavera ao êxtase da vida no verão.
Você está lá...
Me analisando, calculando.
E me obrigando a contar pro mundo que não sirvo pra ele.
Não sirvo a ele.
Arte, por que me prendes?
Logo eu, vil como homem...
Não seria bom como artista!
Mas seria eu pior.
Se não olhasse a verdade.
Verdade essa que dói.
Que sem ter-te.
Me afogaria em mim.
Me asfixiaria envolto em ar.
És minha traqueostomia.
Meu acesso ao suspiro de vida.
Vida, vida, vida
Do que é feita?
Será que a poesia me responderá?
Ou será ela que criará em mim
O buraco sem fim
Que nunca, nada, será capaz de tapar...
Pare, pare, pare...
Não me ouça, não me leia.
Que se a poesia te pegar.
Nunca mais terá a alma cheia.
O tormento que me rodeia.
Tomará sua paz.

Ney Dias