segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Esperança: o engano que acalma, mas não desperta. Uma droga natural e viciante.

Há quem diga que a esperança é virtude.

Eu, sinceramente, a vejo como intervalo. Um estado que deveria ser diminuído até cessar ao longo do amadurecimento humano.
Um estado entre o desespero e a fé, onde o corpo já cansou de sofrer, mas a mente ainda não aceitou o que é. Há na esperança uma quantidade necessária de falta de aceitação do hoje que me incomoda a ponto de dizer que não pode ser bom apesar de parecer.
"Quando estive feliz não tinha esperança em mim."

A esperança é o perfume do futuro no corpo que ainda não aprendeu a estar inteiro no presente.
É a fantasia de que amanhã o mundo será menos cruel, quando o único lugar onde algo muda é aqui, agora.

Quem tem esperança ainda não se entregou ao real.

Bloch e Freire: O otimismo da ação

Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, quis resgatar o termo.
Disse que a esperança é a “consciência antecipadora” a força que move o homem em direção ao “ainda não”.
Paulo Freire o seguiu: esperançar seria verbo de ação, não de espera.

Respeito ambos.
Mas vejo aí uma confusão semântica.
Porque o que Bloch e Freire chamam de esperança, eu chamo de fé.
A fé é confiança em ato, movimento mesmo sem garantia.
A esperança é a pré-fé, o devaneio que ainda não saiu do lugar.
Ela pertence ao campo da fantasia, não da ação.
É quando a pessoa precisa acreditar no impossível porque ainda não suporta o real.

Nietzsche e o veneno da espera

Nietzsche foi direto: a esperança é o pior dos males.
No mito da Pandora, depois que todos os males escapam, é ela que fica presa no jarro como se fosse consolo.
Mas o consolo é o truque mais perverso do sofrimento: adiar a ruptura.
Quem tem esperança, suporta o inferno.
E é por isso que o mundo muda tão devagar porque os esperançosos sustentam o insuportável acreditando que amanhã vai melhorar.  A esperança é o fármaco que mantém a doença viva.

Clóvis de Barros e a ambiguidade do desejo

Clóvis de Barros, com sua lucidez secular, não absolve a esperança.
Ele a chama de afeto ambíguo colada no medo.
Quem espera teme, porque só quem teme precisa esperar.
A esperança e o medo são irmãos siameses: a mesma energia em direções opostas.
Desejar o futuro é temer o presente.
E desejar intensamente o que não é, é recusar o que é. O triangulo 

Enquanto o real tem ritmo próprio, o esperançoso quer ditar o compasso do tempo.
E o tempo, indiferente, o ensina na dor que o real não se curva à fantasia.

Ernst Bloch

Bloch vê a esperança como dimensão essencial da existência humana: ele chama atenção para o que ainda não é — aquilo que está latente, que ainda não se tornou — e acha que esse “ainda não consciente” funciona como motor da transformação. Para ele, a utopia não é fuga, mas “função utópica” que mostra-nos os rastros do possível e nos impele a agir no real por meio dessa terceira temporalidade: passado, presente e futuro como entrelaçados. Em outras palavras: a esperança não é esperar parada, é projetar, perceber “o que ainda não” e puxar para “o que pode ser”.


Paulo Freire

Freire aborda a esperança como uma necessidade ontológica ligada à ação transformadora: ele afirma que sem esperança não há luta possível, mas ressalta que “esperança pura” não salva. Em sua obra, ele defende que a educação libertadora se apoia na esperança como impulso para a ação concreta não num futuro mágico, mas na práxis que transforma o presente. Para Freire, portanto, a esperança vitaliza, mas exige mãos, pés e voz no mundo exige engajamento.


Clóvis de Barros Filho

Embora eu tenha referido que Clóvis tem leitura ambígua da esperança, ele também pertence ao campo dos que a consideram ainda que com ressalvas. Ele observa que a esperança está ligada ao desejo de viver, à alegria, ao reconhecimento da finitude da vida que torna o desejo possível. Ele não glorifica a esperança sem crítica, mas reconhece que ela surge quando quem vive afirma a existência apesar da morte.
Nesse sentido, Clóvis coloca a esperança como impulso vital não mera espera passiva mas ele alerta: esse impulso traz consigo o contrário, o medo, a tensão, o risco.


A esperança como sintoma psicológico

Do ponto de vista da mente, a esperança é parente direta da ansiedade.
Ambas vivem no futuro.
Uma teme o que pode vir, a outra idealiza o que virá.
Nenhuma está aqui.

Enquanto o ansioso sofre por antecipação, o esperançoso sonha por compensação.
Mas o resultado é o mesmo: ausência.
A perda da presença é o preço da ilusão.

Jung dizia que certas ilusões são necessárias, porque o inconsciente precisa de um alívio simbólico antes de enfrentar a verdade.
Nesse sentido, a esperança pode ser uma anestesia útil desde que o indivíduo saiba que é anestesia.
Quem confunde o analgésico com a cura se perde dentro da própria espera e pra alguns isso pode significar a morte, ou perda de autonomia, o tempo não é neutro como muitos pensam, perder tempo em algumas situações podem elevar a gravidade a pontos irreversíveis. 

A esperança na clínica e no amor

Na clínica das dependências, vejo isso todos os dias.
O sujeito diz:
“Tenho esperança de que um dia vou conseguir parar sozinho.”
“Tenho esperança de que ela vai mudar.”
“Tenho esperança de que, quando eu casar, tudo vai se ajeitar.”

Essa esperança é o que o mantém preso ao ciclo.
É a desculpa elegante da inércia.
Enquanto houver esperança, não há entrega.
E sem entrega, não há cura.

Nos relacionamentos, a lógica é a mesma.
O amor doente se alimenta da esperança de que o outro volte a ser quem nunca foi.
É o romance entre o ideal e a negação.


A travessia: do desespero à fé

Mesmo assim, negar a esperança por completo seria ingênuo.
Ela é um estágio.
O instante em que a mente começa a se mover, mas ainda não entendeu o que é agir.
É o corredor entre o desespero e a fé necessário, talvez, mas perigoso se vir moradia.

A alma precisa passar por ele, como quem atravessa um desfiladeiro.
Mas quem monta acampamento ali se condena à estagnação.
A esperança deve ser atravessada, não adorada.


Meu veredito

A esperança é a ilusão mais bonita que a humanidade inventou e, talvez por isso, a mais perigosa.
Ela alivia a dor do presente oferecendo um futuro que não existe.
E quem vive esperando o futuro, esquece de existir.

Toda esperança é ansiedade de quem ainda não aceitou o agora.
É a recusa disfarçada de virtude.
E enquanto for preciso esperar, ainda não há presença.

Não sou contra quem a carrega.
Apenas digo: passe por ela rápido.
Ela é o corredor entre o sonho e a ação, mas o chão firme está do outro lado.

Porque a vida vivida a única que cura, transforma e sustenta não espera.
A vida acontece enquanto o esperançoso ainda imagina o que virá.


Ela conforta, mas paralisa.
Enquanto você sonha, o mundo te vende o direito de não agir.

Não espere mais.
O amor livre, a autonomia e a lucidez que você busca não estão no futuro estão na tua decisão agora.
O próximo passo não é acreditar, é agir.
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