quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Verdade, espelho, bengala

Fui até o corredor da ala Sul.
Não gosto. Mas fui.
Pequenos passos. Mas fui.
Os avisos de cuidados com a escada me irritam um pouco ainda. Mas já caí, verdade até caí...
E os avisos de avisei me irritam mais.
Acompanhado vou, com o par de asas sapeca, que apelidei de Verdade... Voa com a alegria de não poder disfrutar do sorriso por faltar-lhe boca. E minha linda bengala, talhada a mão pelos anos. Dizem as más línguas que com olhos ligeiramente estrábicos, lê-se, mentira, covarde e medo, mas são talhos sem sentido...
Que bobos são, eu mesmo os fiz, saberia eu.

Esse corredor féde a mofo. Pensamento alado que me veio. Carregado de sentimento. De não ir mais além. Minhas asinhas amigas quiseram me dizer algo... Não o fizeram por falta de língua. Apoiada minha bengala, afirmei o passo, não aumentando minha velocidade, mas afirmado estava meu caminho.

Já avistava o espelho ao fundo. O espelho...
Os papéis de parede vermelho com suas flores douradas... O cheiro de mofo... O espelho ao fundo..
Já falei do cheiro? Não gosto do cheiro!

Se não fosse o baú que precisava, esse que já via, ao fim do corredor encostado ao espelho, não iria até lá.

O sentimento piora... Dou alguns passos ainda mais curtos. Verdade vai do fim ao começo corredor, voa rápido, e forte de um lado a outro. As vezes alto, as vezes baixo, pra frente e pra trás. Parecia fazer festa por ansiedade, não costumava me acompanhar até ali. Mas fiz questão e ela veio.

Já via o reflexo de nós três no espelho. Grande espelho que tomava todo o fim do corredor.
Ainda faltava uns metros.
Pensei na bengala. Não conseguiria sem ela.
Mas cheguei, perto, fronte ao espelho, meio metro, tamanho do baú que me afastava.

No reflexo ao longe uma senhora  de costas, não a reconheço. Olho pra trás a procura dela no corredor a minhas costas...
Não acho!
Um pequeno sorriso unilateral me toma. Não questiono o reflexo, afinal, estava lá o espelho bem antes que eu. Penso em ir até ela, pular o baú. Imagino que mesmo sem virar, ela está a sorrir, como quem esperava minha chegada.
Minutos, minutos...
Verdade pousa, como quem pede descanso até que eu decida.
Acerto ela com força, quase quebro a bengala, ela cai...
No chão ainda tenta levantar voo de novo...
Acerto de novo. Penso. Bengala forte!
Arrasta-se... Sendo apenas um par de asas... Mas arrasta-se...
Queria me perguntar por que! Mas não fez por falta de boca.
Com uma mão seguro firme, evitando um novo voo.
Com a outra abro o baú. Lá dentro será agora sua morada.

Ela não virou, mas sinto que a senhora do espelho chora, dou-lhe agora minhas costas. Volto de onde vim...

Corredor mau cheiroso.

Não conseguiria sem minha bengala.