domingo, 29 de junho de 2014

Ontem rotineiro.

Acordei hoje, e o ontem acordou comigo.
O sol nascido era o mesmo de tempos atrás.
O vento soprou frio. Mesmo em altas temperaturas marcadas nos ponteiros das pessoas que diferente de mim acordaram hoje.
Ontem, voltou!
As coisas se repetiam, e senti medo.
Pensei estar preso, e se o ontem nunca acabar?
E o amanhã será só para os demais...
Inferno, perdi o direito do amanhã.
Acordei no ontem, viverei no ontem, morrerei no ontem!
Me pergunto: Minhas partes ão de apodrecer?
Desmancharei como os demais?
As bactérias ploriferarão e se alimentarão de mim?
Ou elas no amanhã já vivem...
E buscarão corpos perfeitos mortos no dia.
Ah o hoje, como deixei perder-se?
E se o rio se transformou e eu, o mesmo tentei banhar-me?
E se o calendário pulou, e eu teimoso insisto em não arrancar a folha?
Maldito ontem me assombra.
Maldito ontem.
E agora vejo!
A quantos estou a repetir?
Milhões de dias iguais, se refazem no amanhã. Esse que não chega a mim.
Será que essa é a chamada maldição da imortalidade, onde só o fim é a libertação?
E repensado vejo que as questões são as mesmas. Tudo é igual.
Colocarei-me em recolho mais cedo hoje. Pois não precisarei aguardar a chegada da lua, amanhã ela virá, como veio ontem, hoje.
Idêntica.
Ney Dias

sábado, 28 de junho de 2014

Alice Sant'Ana

Que mal tem em ser a inspiração de alguém?
Sim, eu estampo seus olhos por aí, em cada risco tem um pouco de você.
Nas mãos que segura o grafite defeituoso, no pedaço de papel que faz morada.
Na forma de fotografar e de escrever sobre.
Ao fechar o caderno, ao guardar a borracha.
Colocar o cobertor encima da cama e o ventilador na tomada.
Apagar a luz e tentar me desligar da tua falta de amor.
Boa noite, bom descanso e melhoras.
Não só "melhoras" pra gripe repentina.
Melhoras pro seu coração que tem medo de amar.
Melhoras.
Melhoras.
Mas vê se não te demoras.

Alice Sant'Ana

Alice Sant'Ana

Sim, vou abrir mão de sentir o frio na barriga ao te ver.
Vou abrir mão dos abraços apertados e das madrugadas perigosas.
Faço questão de abrir mão dos desenhos e céus estrelados.
Abro mão também do toque, da cachaça e do dengo.
Também da bala de hortelã que adormece o seu beiço.
Do cafuné desordenado no umbigo e dos beijos na barriga.
Faço questão de abrir mão de cada beijo e marcas no pescoço.
Com o coração partido eu abro mão de cada música e nota cantada.
Abro mão do gosto bom que sentia quando atendia sua ligação no meio da noite.
Eu abro mão porque dói menos.
Eu abro mão porque você nunca fechou a suas pra segurar.
Na verdade eu abro mão de fazer questão de abrir mão, porque eu não sei se assim você vai sair de mim.
Vou manter segurando, caso você queira ir embora, você vai escorrer por entre os meus dedos, assim como está acontecendo comigo em suas mãos.

Alice Sant'Ana

sábado, 14 de junho de 2014

Poeta

Não, minhas palavras não são pra agradar.
Não escrevo sobre a margarida branca...
Ou o luar cheio, dos amantes.

Não sou poeta, muito menos escritor.
Que vão pro inferno os tais.

Que seque a linda rosa.
Murche.

Minhas palavras não se intitulam poemas.
Não há poesia nelas
Ao inferno as tais.

Eu grito ao papel, não canto.
Arranho lata, não toco.

Não procure arte aqui.
Não encontrará.

Ney Dias

domingo, 8 de junho de 2014

Promessa

Minha vida metadeada.
Partes longes. Longiando o que está dentro. Afastando o que era pra ser o mesmo.
Órgãos se rejeitando e fazendo parte do mesmo corpo, que sente o pedaciado, o fragmentamento do viver.

Ney Dias

sábado, 7 de junho de 2014

Augusta

Angustiante Augusta.
Transeuntes, transcrevendo.
Transformando, transformados.
Augusta
Transeuntes, transviados...
Transando, travestidos, trocando.
Angustiante
Traindo, traduzo com poucas palavras...
Transitando meus olhos entre...
Augusto, não.
Augusta, ativista, atitude. Altruísta.
Ah!
Traidores amigos.
Ney Dias