terça-feira, 12 de julho de 2016

Insatisfação de estimação

Mentiram pra mim.

Me disseram: preguiçoso!

Mas isso não sou, nunca fui na verdade.
Só que meu corpo se recusa a fazer o que essa vida mesquinha me oferece de opções.

Uma luta vã.
Uma busca tola.
Uma vida que exige.

Porra!

Eu só não quero isso. Quero aquilo e aquilo outro.

Cansado de ser parte do sonho alheio.
Do sonho Americano ou de qualquer merda que disseram que seria um sonho viver.

Preguiça é o cacete.

O que me fode é essa merda de sociedade impondo um monte de regras.
E pior.
Essas regras são respaldadas quando um chama de valores. E todos dizem amém.

Moral, ética...

Se, sentir-me complemente insatisfeito e com ânimo só pra rastejar em meio esse lodo hipócrita é preguiça?

Sim, tenho preguiça de todos vocês.

Desculpe, não chamo de preguiça.

Chamo de insatisfação de estimação.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Cheiro de urina

Hoje notei que ainda sinto-me aliviado com cheiro de urina.

Uma parada a tarde num bar fétido.

Uma inocente Coca-Cola.

Como se houvesse possibilidade de alguma inocência na minha mente.

Um dia de cão.
Uma semana de cão.
Um mês de cão, sei lá.

E minha parada a tarde, é num bar fétido.

Atendimento precário.

Poucas pessoas.
Um homem tomando uma pinga as três da tarde.
Outros conversando na mesa plástica, com sua cerveja gelada.
Quantas haviam tomado?
Era a primeira, a segunda?
Não sei. Procuro alguém que me atenda.

- Uma coca por favor.

Trocados amassados no bolso, deixados em cima do balcão, e banheiro.

Aquele cheiro.

Fechei a porta com dificuldade.
Velha, porta velha.

Aquela olhada ao redor.

Toalha de pano, pia encardida.

E pronto.

Estava no ambiente seguro de alguns anos atrás.
Um pequeno mundo podre onde me senti muito bem durante um tempo.

Um metro quadrado onde não há nada além de mim e minhas intenções.

Lembrança olfativa de um submundo ainda vivente no eu.

Uma passagem para outro mundo.
O mundo mágico da loucura.

Abro a porta.

Saio de lá.

Minha coca aberta.

Carro alheio na porta.

Fumo um cigarro.

Vida real.

Saudade do cheiro de urina.

Ney Dias