quarta-feira, 30 de julho de 2014

Completo

Quase fui um bom aluno.
quase fui um bom colega de classe
quase consegui bons amigos

quase consegui um emprego jovem
e quase me dediquei e ele.

quase cresci

e assim veio os amores, quase fui um bom namoradinho...
e depois quase fui um namorado especial.

quase me marginalizei.
a vida as margens do correto, quase me mataram.

os bons empregos vieram, e quase valorizei isso.

e o amor veio, quase fui um bom marido.
quase fui um bom pai.

quase...

quase me recuperei, quase seguindo uma nova doutrina de vida.

a separação chegou e quase foi tudo bem.

com o tempo, me apaixonei, quase foi muito legal.
me apaixonei outra vez, quase foi muito legal de novo...

e depois quase foi mágico, quase dura...

quase me recupero da frustração...

hoje aqui quase consigo sorrir e ver minha vida por inteiro.
quase aprendi com meus erros, e quase valorizei meus acertos.

consegui entrar pra faculdade, sem pagar nada...
Quase fui...

quase tenho alguém comigo que me ama...
quase posso bater no peito e dizer vivi quase que intensamente tudo o que poderia com ela...

Foram tantas profissões...
e quase fui muito bom nelas!

e o quase homem que me transformei... quase triste...
se pergunta!

Onde errei?

Ney Dias

sábado, 19 de julho de 2014

Mal cheiro

Sinto ele exalando de mim.
Se espalha.

Sentimentos baixos, pequenos me consomem.

Eu, que não quero.
Eu, que não tenho.
Eu, que não...

Perdi minha canonização.
Sinto-me imperfeito.

Podre.

Ney Dias

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Paz

Não arrisque sua paz.
A tão rara.
Por que deve fazer por você o que o outro não faz.
Não pise sobre o rio congelado.
Deixe a pequena lá, no meio dele.
Porque se racha com vc também estará condenado.
Não arrisque a tranquilidade de seu travesseiro.
Ela é tudo que sempre buscou.
E, aquele que o sono faltou.
Aquele, que a lua não brindou.
Uma hora dormirá.
E nem se lembrará do abandono.
Porque vítimas perdoam.
Porque algozes maltratam...
Porque algozes matam...
Porque algozes espancam...
Em nome de deus.
Em nome de valores.
Em nome de quê?
Perdão vítima.
Hoje falta-lhe heróis e sobram-lhe algozes.
Por que tão culpada que a mão que fere, é a mão que se esconde na paz do bolso.
Ney Dias.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Alheio

Hoje falta-me talento.
O grito não consegue sair.
As lagrimas secas, cansadas, impossibilitam o esvair da dor.

Como extravasar isso?
Falta-me arte...
Falta-me a destreza do músico que chora com as notas.
Falta-me o traço firme do desenho pra expor as trevas.

Meu talento me limita.

A ausência de prazer me causa dor intensa.
E não vejo analgésico.

Oh minha arte, me abandona no momento em que só a ti me daria.

Vida!
Me dê argila pra amassar e construir um sorriso no rosto dela;
Ou uma mascara pra me tapar.
Quero um martelo e um cinzel pra talhar a pedra que pesa em meu peito.
E transforma-la em algo notoriamente belo.

Se sinto como tal...
Hoje falta-me o talento.

Artista moco pra musica, desforme para o talho...
Inapto pro risco. Prolixo pro escrever...

Meu sentir é tolo e dependente. Infantilizado pela insatisfação inerente.
Observarei a arte alheia que me foi dada.
Que me sobra...
que me ampara.

Que o talento fora, toque o dentro vazio.
Preencha a lacuna do artista seco, cinza...

E se essas mãos não fazem...
Use sua boca carnal pra construir o sorriso que lhe falta.
E devolva meu bom sentir.

Ney Dias


sábado, 5 de julho de 2014

Pra não sentir saudade.

Encontrei a maneira.

Sem música, ou sorrisos...
Sem lugares.

Ou músicas sem palavras.

Talvez eu não ande por onde andamos.
Ou não diga palavras que te digo.

Encontrei a maneira.

Sem músicas, sem sorrisos...
Sem lugares.

Talvez se eu troque a roupa de cama.
Ou troque minha pele.

Encontrei a maneira.

Sem músicas, sem sorrisos...
Sem lugares.

Talvez eu não use telefones ou computadores.
Ou fique surdo.

Encontrei a maneira.

Sem músicas, sem sorrisos...
Sem lugares.

Talvez se eu evite algumas pessoas.
Ou me isole.

Encontrei a maneira.
Encontrei a maneira.

E se eu não existir durante...
E se...
Talvez...

Não sei fazer.

Ney Dias.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Dom

Não gosto de poesia.
Ela me persegue durante o sono.
Me acorda.

Não gosto de poesia.
Ela me engasga.
Me afoga o peito.

Não gosto de poesia.
Ela grita comigo.
Me obriga a falar.

Não gosto de poesia.
Ela me nomeia.
Gruda no meu eu.

Meu sentir é tosco...
Um devaneio completo de erros sequenciais.
E ela me entrega.
Me julga e condena.
Fala por si.
É um escarro de palavras.
Há de chegar o dia em que não mais serei condenado.
Quando expressar através dela como uma alma apodrecida fede.


Ney Dias