quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Pedido de socorro (Sela)

Foi tão rápido...
Não vi o que aconteceu.
Passou!
Minha vida levada pelos tropeços...
Minhas mãos tatearam o chão;
Mas não evitaram a queda.

Mas não foi o tombo que me arruinara.
Foi onde caí.
Foi de onde caí e onde reabri os olhos...
Não havia como voltar e passar por onde passei enquanto tentava me equilibrar.

Perdi tanto tempo evitando o chão.
Que me estabaquei em um chão que não queria.

Era um lugar estranho.
Um futuro não escolhido.

Um lugar
Um lugar

Não era o lugar,  muito menos o meu lugar
Era um lugar...

As roupas.  As cores.  As casas.  As festas...

Nada mais,  nada mais me era familiar.

Não havia nada ali. Além de tudo o que deveria estar ali,  entende?

E o que poderia se fazer diferente pra mim, era igual, apenas igual de uma maneira diferente.

E estava lá.
Não havia nada a ser feito além de aceitar.

A dor intensa da raiva me tomou.
Uma energia tóxica que movia poluindo toda a alma,  o corpo...  o ser.

Gritei meu deus!
Não que chamasse um deus.  Mas como uma frase pronta de desespero que aprendi desde criança.

Não havia um deus. Não há um deus!
Eu sabia...
Mas não havia outra coisa a ser dita.

Minha vida havia me traído. E eu não percebi a tempo de mudar minha condição de vítima. Ou talvez não imaginava que poderia um dia estar nessa condição.

Peguei-me defendendo-me de crimes que não cometi.
Ou que cometi por acreditar que não havia outro jeito.

Como um indígena sendo evangelizado pra evitar uma ida a um inferno que não existe.
Mas que se torna real e amedrontador a partir daquele momento em diante.

Aprendendo que sua nudez era um pecado.
Sem ao menos ficar claro o porquê.

Me vi ali. Aprendendo como seguir uma seita de horrores limitantes e de dor intensa.
O que pode ser pior para minha alma livre?

A morte?

Nunca!  A morte seria algo infinitamente menos sacrificante  do que a sobrevida oferecida por mim a mim mesmo.

E não há recuo.  Não há recusa.

Travei a tranca da cela e joguei as chaves por entre entre as grades.
Uma cela enorme.  Admito,  Mas uma cela!

Sentarei até encontrar uma solução, com o medo de não haver nenhuma.
Será que ainda não caí?

O tropeço continua longo o contínuo?

Será que o chão me assusta tanto que o evito com todas as forças. Em um momento que minhas forças teriam que ser focadas em fincar os pés na realidade?

Preciso realmente sentar...
Meditar...
Talvez a sela não seja tão ruim.

Ney Dias