quinta-feira, 29 de maio de 2014

Amado algoz

De onde vem seu poder?
Onde encontra força tamanha para resistir a força tão...

algoz que não quer o mal.

Onde encontra sua luz?
De onde vem, brilho tanto, que ofusca raios tão...

algoz que não quer o mal.

Shiva és, constrói destruindo.
Cria matando...

algoz que não quer o mal.
que ama.


Ney Dias

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Quero

Sim eu quero acordar cedo e dividir o banheiro. Encontrar partes de roupas intimas penduradas na torneira do chuveiro, e em dias sorrir ao ver, e em outros brigar por isso.
Quero chegar cansado do trabalho e encontrar um belo jantar, ou ter que cozinhar pra nós.
Reclamar da fatura do cartão, e perceber que foram presentes pra mim.
Saber sobre o dia de trabalho do outro enquanto tomo banho.
Sentir cheiro do perfume derramado.
Ser chamado de tio, por aqueles que vejo como filhos.
Dar satisfações dos meus atrasos, e me preocupar com o atraso do outro.
Olhar pra frente, perguntar o que acha, negar um emprego pra ficar perto, aceitar um emprego pra melhorar as coisas.
Brigar.
Amar.
Pedir desculpas mesmo certo, ou pelo menos achando isso.
Esperar a maquiagem por horas, pronto.
Sorrir ao ver a bagunça feita pelas crianças, ou em ver os olhos brilharem ao me ver chegando com um mimo de poucos reais.
Construir sonhos inalcançáveis e vê-los se aproximando por que não fiz nada sozinho.
Quero o amor romântico, atraente e carinhoso.
Só não o quero a dois.
Ney Dias

Ilustração: Is
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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Resíduo.

Espero que tenhas um lixo enorme.
Onde caiba meus sonhos...
Espero que tenhas um lixo enorme.
Onde caiba suas lembranças;
Onde caiba nossa luta, e caiba nossos sorrisos.
Onde caiba a esperança e promessas.

Espero que seja firme o recipiente.
Para que aguente o peso da culpa e do arrependimento.
Espero que seja firme...
Aguente a dor que cresce depois de jogada fora, alimentada pelos vermes.

Que seja fechado, selado...
Para que o cheiro não se espalhe.
Que não sinta ele do nada em meio momentos que poderia dividir.
Tomara que a bela flor nascida do outro lado do atlântico te cause sorrisos e não lágrimas.
Ela será sua, só sua... Apenas sua...

Que não seja transparente, pra esconder as imagens registradas;
sejam elas por câmeras, ou pela mente.
Que mantenha a luz, que deveria arrancar sorriso, bem presa;
junto com o calor do colo.

Agora informe-se.
Pois não sei que embalagem usar pro amor;
pelo que sei ele rompe barreiras, quebra estruturas.
Foge de jaulas, pula muros. Agarra o que quer com as unhas os dentes as mãos.

E se puder, divida comigo seu espaço fétido.
Não me preparei pra tanto desuso, tanto descarte!
Não tenho onde guardar o que quis contigo, não tenho onde por meu sonho.
Me falta embalagem apropriada pra caber toda uma vida.

Não posso comprar tal alcova, não tenho plano funerário.
Onde enterrarei tantos mortos, meu sonho já fede a dias...
Infelizmente não terá a opção de negar-me tal favor,
Carregará contigo, no seu lixo.
Pois já levou, pois já fede.

Ah! Se distância evitasse o cheiro, o peso, o tamanho...
Não chagaria a mim, mas ele tem o poder de cruzar oceanos e mares.
Atravessar fronteiras sem documentos, ou autorizações e ele virá. Sim virá.
E saberei que não reciclou nada, que espera desmanchar como a maioria dos lixos.

Saiba, não dividirá nada, fará o que é seu...
Porém o resíduo fica pros dois.


Ney Dias














segunda-feira, 5 de maio de 2014

Eu vejo!

Vejo poesia no relógio parado.
Na porcelana velha em cima da prateleira.
Vejo poesia no gramado falhado da casa abandonada, porém habitada.
No olhar do homem mal vestido, e mal cheiroso, em meio a riqueza da metrópole.
No pequeno cão, preto no asfalto fazendo sombra.
Na cinza do cigarro. No ambiente fétido que reflete a alma.
Vejo poesia no sorriso da moça, no abraço da criança.
No cumprimento do ébrio. No seu repetir de frases inúteis.
Na lágrima, nas lágrimas, do sorrir, chorar e se emocionar. Na luta...
No estresse do trânsito parado, na calmaria de um parque ensolarado.
No caos emocional do amar, na ânsia do querer, na colonização do outro.
A sinto no semi silêncio do banho.
Na bronca da mãe, na contrariedade do filho. No nascer e no morrer.
Na penetração bruta e no toque sutil.
Não faço poesia, as colho no jardim do existir.

Ney Dias