sábado, 28 de outubro de 2017

Verdade, espelho, bengala - II



Eu preciso me desculpar com você

Desculpe-me por tudo o que causei.
Não valorizei seu corpo, sua saúde.
Sei que nunca dei a atenção devida as suas vontades e desejos.

Todo o tempo que só me dediquei ao trabalho e não ouvi que precisava de atenção
E quando não era isso... Era...
Toda aquela bebida
Todo aquele uso de drogas

Desculpe

Eu precisava me dopar.

Eu não conseguia te encarar, sabia dos meus erros
Vi que com os anos você foi mudando e perdendo aquela luz

Já não tinha mais os belos planos
E nem mesmo a esperança imatura que um dia carregou

Vi sua pele enrugar
Seus sonhos não te movimentarem mais.
Pior que isso, vi os resquícios destes sonhos trazer-te uma sensação de falência

E você sonhava tanto
Sonhava longe, sonhava alto

E eu fui o culpado de tudo isso não ter acontecido
Eu nos vendi.
Nos entreguei!

E agora, te olhando nos olhos aqui nesse espelho!
Só me resta lhe pedir perdão.

Porque possivelmente não haja mais tempo!

Ney Dias

domingo, 27 de agosto de 2017

Lápide

Sobre o que quero em minha lápide...
Desculpe a desatenção
Mas pouco me importa o que lá estiver

mal penso nisso
Lápide, enterro
Velório

Se houver bem
Se não, bem também

Problema de vocês vivos
Isso tudo será pra vocês

Vivos

Imperador de mim é o hoje
Esse sim
O que toco o que vejo
Esse sim

Me importa

Entendo e respeito
Cada lágrima na morte
Mas essa dor
Já não será minha

Ney Dias

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Compraram o poeta

E ele se pôs a venda

Escolheu comer
morar
"viver"

O empresário

coloca mais um artista em seu aquário

Mais um talento
lento
Sem a velocidade do capital
Afinal...

Mero mortal

Como nadar contra a maré
Desse sistema arbitrário imoral

Priscilla Cristiane S.
Ney Dias

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Conflito

Eras tu conflito
Claro
Eras eu conflito
Claro
E entre as liberdades
Foram forjando correntes
Não as más
Não aquelas correntes...
As macias
As que queremos usar
As que brilham
Eras tu
Eras eu
Somos os conflitos
Que queremos ter

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Quem ousou batizar o amor?

Quem nomeou o verbo amar de amor?
Amar é ação
É energia, intensidade.

Quem o parou?

Padronizou, rotulou!

Misturou com outros sentimentos...

É tão mais simples!

Eu amo
Tu amas
Ele ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam

Todos amam.

Combinação
Conjugação

includente

Transforma não deforma

O amor não é um nome
não cabe.
Não serve!

Uma pitada disso, daquilo
Acrescenta
Muda
Coloca e o que sobra é só aroma de amor.

Adulterado!

Artificialidade reina nessa receita

O substantivo pode ter dono, pode ter fim, limita
Explica

Mas o verbo, a ação, ah a ação.
Agir. Sentir. Incluir.

Esse sim representa o que sinto quando amo!

O amor não se representa

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Meu veneno foi a esperança

Hoje velei-me

Na verdade, notei que velava-me há alguns dias. A morte em vida havia me alcançado e não notara.


Uma tristeza residia em meu corpo um inquilino tão fiel que passava despercebida.
Como aquele móvel inútil que toma espaço mas não incomoda o suficiente para ser retirado do recinto.


Era tão comum, descer rapidamente os degraus do humor até o inferno astral, que já se fazia curto o caminho por repetição.
E foi assim, dia após dia que em um estante de insight notei...
Estava velando a mim em vida plena.
Alimentando o corpo para mantê-lo em movimento mas sem uma rota desejada.
Já não havia mais desejo inserido.
Apenas a sobrevivência instintiva do bio.
Morri, e se pra tudo há solução, menos para morte. É assim que é.
Não há mais solução já que a morte chegara.
O que mantém o corpo, são os aparelhos.
Aparelhos esses nada tecnológicos.
A prole, as obrigações, a culpa, o reparo a moral destruída, a esperança que como sempre faz seu papel vão de manter.
Manter.
Manter.
Iludir.
E frustrar.
Talvez o que sempre tive mesmo foi esperança e só.
Sem a mínima possibilidade de conquistas, seja por lógica ou ineficiência, ou por ambos.
E a lucidez sobre o desencarne do sonhador se faz tão inútil quanto a ignorância de outrora.
Alcancei a provável metade de minha existência para notar a irrelevância da mesma.
Minhas escolhas egoístas me levaram para longe da pessoa que realmente precisava de minha presença. E com isso algo que agonizava veio a óbito.

E como não há solução para a morte.

Levemos até as últimas consequências!