domingo, 20 de março de 2016

Minha vida foi tomada intensamente por dores muito cedo, mas eu não imaginava que aquilo era dor.



Minha vida foi tomada intensamente por dores muito cedo, mas eu não imaginava que aquilo era dor.
Vivia sempre em uma enorme insatisfação. Nada que me foi oferecido pela vida ao nascer me era suficiente, família, colegas, situação financeira e até o corpo físico, eram estranhos a minha vontade.
Uma saída imediata, era, começar viver uma mentira, uma negação de realidade que me trazia mais paz.

Meus medos, anseios e limitações ficaram escondidos atrás de um personagem que acreditava que tudo era normalmente possível viver através da imaginação de que havia vivido ou iria viver.

Histórias vividas por outros começaram a fazer parte da minha vivência, e serem compartilhadas com colegas com a certeza de que com elas... eu seria mais interessante e pudesse ser alguém que eu sonhava ser.

Com o tempo, isso virou algo comum, não me causava grandes problemas confesso, porém, algo mágico aconteceria na passagem da minha infância para a pré adolescência, eu conheceria drogas.
Com isso, todos as minhas fantasias começam a ter um fundo maior de verdade. Eu começava a realmente viver algo diferente de todos os que eu conhecia, me sentindo assim, incrivelmente especial.

Foram dezessete anos fazendo uso, horas menos, horas mais, meses sem maiores problemas e outros com completo descontrole em todos os âmbitos da minha vida.

Até que o último ano, foi suficientemente aterrorizante pra que eu buscasse ajuda em me recuperar.

Quando me deparei com um grupo de pessoas que dividiam os mesmos sentimentos, as mesmas dores e os mesmos problemas que tinha, me senti acolhido, abraçado e senti que minha vida poderia tomar outro rumo, só não imaginava que nesse grupo havia alguns comportamentos; de alguns indivíduos, que teriam que ser evitados.

Algumas coisas me fizeram entender que minha decisão em parar de usar drogas lícitas e ilícitas seria apenas o começo de uma árdua jornada de mudanças, mas nunca imaginei que seria algo tão interno.

Como grande parte das pessoas, tudo é visto com muita superficialidade, e eu não era diferente, mudar alguns hábitos, amigos, frequentar novos lugares e ter força de vontade, era o que esperava aprender com esse grupo e depois, "voilà" o pesadelo acabou... e sou uma pessoa livre das drogas!

Mas logo nos primeiros dias percebi que a coisa não era tão simples.

Grande parte das pessoas que estavam ao meu redor, digo, grande parte mesmo mais de noventa por cento, não era a primeira vez que estava em uma clínica, e pior, também não era a segunda vez, fiquei abismado quando vi que um conselheiro que me parecia muito inteligente e focado em estar "limpo", já havia sofrido seis intervenções.

Isso me fazia pensar todo o tempo que não era aquilo que eu queria, então comecei a investigar, não o que precisava pra parar de usar, e sim, permanecer limpo, afinal de contas, parar eu já tinha parado!

As pessoas que mais eram entrevistadas por mim, as pessoas que mais eu questionava eram as que passaram por esse processo que chamamos de recaída, e em um posicionamento unanime, todas me disseram: A recaída começa no estado emocional! Meus sentimentos me fazem fazer coisas que não quero!
Isso mudou completamente minha estratégia de recuperação, meu problema não era a droga e sim a maneira que meus sentimentos me dominavam e mudavam o rumo da minha vida.

Mas e agora? O que fazer?
- Não controlamos nossos sentimentos!

Essa foi a primeira mentira que deixei de acreditar, com a mente muito aberta e um foco, me deixei aprender que SIM, nossos sentimentos são controlados, minimizados e até extintos quando aplicado meu desejo de transformação na minha maneira de pensar em relação a tudo e a todos.
Todas as minhas justificativas cairiam por terra naquele momento, e uma dor maior que todas que havia sentido até então tomou conta de meu interior. Naquele momento me senti completamente nu diante da vida, nenhum comportamento meu era mais justificável pelo meu sentir e isso me mostrava apenas a pessoa que eu era, sobrava apenas meu caráter e minha palavra pra ser avaliada.

Foi aí que comecei a avaliar os erros dos outros, afim de que não cometesse os mesmos, e sim, era uma realidade, sobrou vontade, sobrou verdade, sobrou teoria, mas faltou mudança. Uma honesta mudança interna da maneira que era vista e avaliada a vida, os outros e o próprio individuo.

Todos transferiam as responsabilidades de suas decisões para qualquer outra coisa, menos para si próprio, e se ajudavam entre si, aprovavam as transferências de fracasso com palavras de incentivo ou com identificação dos erros como comuns em pessoas com nossa limitação (doença), criando um círculo vicioso de comportamentos destrutivos e apoio mutuo, que amenizava a consequência, afinal, se sou eu condicionado a sentir e agir assim, por que a consequência seria uma responsabilidade minha?

Ouvi em reuniões:

Deus me fez para ser infeliz desde meu nascimento? Não tive a oportunidade de ser normal nem um dia sequer!

A recaída faz parte da minha doença, preciso colher o melhor dela e aprender com isso!

A meio social em que vivo nesse momento, me impossibilita de qualquer mudança atualmente!

A sociedade me empurra constantemente a ter esses acessos de raiva, e com isso não me controlo.

Mentiram pra mim, me disseram que seria de outra maneira!

Meu (minha) companheiro(a) não me entende, e acaba atrapalhando meu processo.

Minha família esquece da minha doença e traz bebida pra casa.
E o pior, era uma maioria, os números não mentiam, 3% apenas das pessoas que procuravam ajuda, realmente se recuperavam e dessa minoria, 70% voltariam a usar nos próximos 5 anos do inicio da abstinência, era uma taxa de fracasso altíssima, e eu não queria fazer parte dela.

Então, a primeira coisa que constatei era que, precisava me livrar de um passado de auto-engano constante, e que mesmo livre das substancias, eu continuaria tentando mentir pra mim, e criar uma realidade paralela que amenizava a dor de ser eu mesmo.

Quando errava, precisava admitir cada erro, sem transferir a culpa para tudo e para todos. E lidar com a consequências deles, seja eles causado por um mal juízo, má interpretação, má intensão ou movido por sentimentos, esses erros eram meus e de mais ninguém.

Percebi que alguns membros, usavam da própria literatura para amenizar esses erros, temos sim predisposição, prevista em nossos guias, a sermos intensos e agir em cima dos sentimentos, colocando de lado, focos e objetivos inicias, e não somos culpados disso, mas temos também a responsabilidade de aprender e se adequar social e eticamente  afim de não prejudicar ninguém e nem a nós mesmos em nome dessa predisposição.

Engana-se aquele que pensa que dependência é apenas de substâncias químicas lícitas e ilícitas, uma dependência é tudo aquilo que te limitam e te força a viver indo contra seus valores, focos e abjetivos. As vezes forçando a troca do objetivo, criando uma falsa aceitação para amenizar a dor do fracasso, fracasso esse, que já era claro no inicio da tentativa de acerto.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Moça feminista

Moça, feminista
desculpe a indelicadeza.
Mas fiz a macheza.
De lhe comprar uma flor.

Acredito no seu feminismo...
Não quero ser tosco,
E nem quero que seja machismo...
Mas só quis ter um ato de amor

Moça feminista
Não preocupe-se, não busco seu perdão
E longe de ser algum tipo de manipulação

É só um mimo
Um agrado
Nada calculado ou planejado

Me perdoa esse romantismo
Mas diferente de muitos...
Não há nem um pingo de cinismo,
nesse ato singelo...
Lhe ofereço essa bela rosa
Com um sorriso amarelo
Só tentando lhe arrancar um brilho no olhar

Confesso que sei, que pra ti, nem há tanto valor.
Pelo seu jeito de sempre...
(Longe de mim... Não quero que mude...)
...de não gostar muito de flor.

Conheço seu jeito feminino, lindo, de ser mulher, meio menino.
E foi sua força feminina, que me deixou respirar mais livre nesse mundo macho e ser menos masculino.

Ah! Moça feminista!

Fiz assim no papel...
Pra te mostrar que não foi em vão;
E que dei a devida atenção
As várias vezes que me pediu
Algo por mim criado...
E escrito a mão.

Demorei mas...
Tá aí, minha letra!
Meio garrancho, como diziam os antigos...
Acompanhada de uma rosa
O símbolo do romantismo

Romantismo machista
Mas encarecidamente lhe peço
Que abra uma exceção na sua lista...
E...
Não me entenda mal
Mesmo que agora não seja algo normal
Espero que veja...
Isso como uma gentileza

Um agradecimento
Porque seu feminismo me ajuda a dissipar o tormento que fui criado
Mas agora amado
Por esse amor diferente
Sigo feliz e contente
E um pouco aliviado

Por isso o afago...
...em forma de flor

Moça feminista
Ela vai morrer eu sei
E nada vai mudar ou melhorar
Mas se agora, só agora
Ela ajudar a lembrar, o tanto que te amo
A vida dela valerá a pena
e a minha também

Ney Dias