Hoje notei que ainda sinto-me aliviado com cheiro de urina.
Uma parada a tarde num bar fétido.
Uma inocente Coca-Cola.
Como se houvesse possibilidade de alguma inocência na minha mente.
Um dia de cão.
Uma semana de cão.
Um mês de cão, sei lá.
E minha parada a tarde, é num bar fétido.
Atendimento precário.
Poucas pessoas.
Um homem tomando uma pinga as três da tarde.
Outros conversando na mesa plástica, com sua cerveja gelada.
Quantas haviam tomado?
Era a primeira, a segunda?
Não sei. Procuro alguém que me atenda.
- Uma coca por favor.
Trocados amassados no bolso, deixados em cima do balcão, e banheiro.
Aquele cheiro.
Fechei a porta com dificuldade.
Velha, porta velha.
Aquela olhada ao redor.
Toalha de pano, pia encardida.
E pronto.
Estava no ambiente seguro de alguns anos atrás.
Um pequeno mundo podre onde me senti muito bem durante um tempo.
Um metro quadrado onde não há nada além de mim e minhas intenções.
Lembrança olfativa de um submundo ainda vivente no eu.
Uma passagem para outro mundo.
O mundo mágico da loucura.
Abro a porta.
Saio de lá.
Minha coca aberta.
Carro alheio na porta.
Fumo um cigarro.
Vida real.
Saudade do cheiro de urina.
Ney Dias
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