quarta-feira, 24 de junho de 2026

Meu primeiro sucesso foi numa guarita de um emprego embassado.

Pra lá de vinte anos escrevendo sobre amor, independência, dependência química, dependência emocional, desintoxicação da monogamia, relações, vícios, fuga, desejo, dor, abstinência e essa mania humana de chamar corrente de segurança.

E agora escrevo meu primeiro livro sobre BDSM, em parceria com minha namorada.

Um romance viadinho, cheio de carinho, ciúme, medo, caos, coleira, ternura, tesão, vergonha, cuidado, raiva, liberdade e essa tentativa absurda de transformar vida em literatura antes que a vida transforme tudo em esquecimento.

Que loucura.

A vida é uma piada linda mesmo.
Nem eu seria tão criativo para inventar uma vida como a minha, por isso talvez seja melhor escrever a partir dela.

Antes de blog, antes de Instagram, antes da Tríade ou rede socias, antes de método, antes de curso, antes de livro, teve um menino sentado numa guarita de hospital público escrevendo um conto à mão em folhas de caderno. Meu primeiro emprego com carteira assinada foi como segurança de hospital, e de longe foi um dos lugares mais horríveis onde já trabalhei.
Hospital público, escala seis por um em um cargo que ninguém respeita ensina cedo demais a diferença entre estar empregado e estar vivo.
Na época  pedi uma ajuda que veio quase com cara de punição. Aquela vaga, aquele emprego era tão horroroso que cabe um livro só dele. 
Fora o próprio desrespeito do empregador para com a gente que não éramos  funcionário diretamente da área da saúde, então ficávamos as margens a maior parte do tempo, a gente vê dor, grito, surto, pobreza, medo, abandono, gente segurando gente, gente tentando sobreviver do jeito que dá, e no meio disso eu estava lá, jovem demais, cansado demais, tentando virar adulto no susto.

E escrevendo.
Conheci muita gente legal, isso sim, até me casei lá, fiz amigos... no quesito social foi intenso, eram mais de mil funcionários de vários turnos e eu ficava parte do planto na guarita administrativa. 

Devia ter uns dezenove anos quando escrevi meu primeiro conto que mostrei a desconhecidos. Umas vinte páginas, sei lá. Uma trama meio doida, com uma menina e uma mulher que se juntavam para tirar uma onda com um cara. Tinha traição, fuga, tensão, quebra de expectativa, ponto dramático, essa coisa toda de quem ainda não sabe escrever, mas já sabe que dentro de uma história todo mundo quer alguma coisa, esconde alguma coisa e foge de alguma coisa.

Foi meu primeiro sucesso.

Sucesso mesmo.

Não sucesso de editora, prêmio, crítica, lançamento ou foto segurando livro. Foi sucesso de guarita, sucesso de horário de almoço. Foi sucesso de companheiro de trabalho aparecendo para perguntar se eu já tinha escrito mais. Os caras da segurança liam o conto e pediam continuação. Acompanhavam em tempo real aquela história feita com caneta, no intervalo de um trabalho ruim, por um jovem que talvez não soubesse quase nada da vida, mas já tinha dentro dele essa urgência besta e sagrada de transformar pensamento em narrativa.

Ali eu senti que tinha talento.

Pode parecer pequeno, mas não foi.

Para um escritor, alguém querer a próxima página é uma droga poderosa. Mais íntima que curtida, mais perigosa que elogio. Alguém entrava na minha ficção e voltava pedindo mais. Alguém queria saber o que eu ia escrever depois.

E hoje eu olho para aquele garoto e tenho certeza absoluta de uma coisa ele está feliz agora.

Eu estou feliz e orgulhoso por ele.

Feliz porque ele acreditou porque terminou aquelas páginas porque recebeu parabéns dos colegas.

Eu lembro da minha plateia feita dos meus iguais, gente de trabalho, gente de guarita, gente de almoço corrido, gente que não precisava fingir sofisticação para gostar de uma história. Feliz porque, naquele lugar improvável, alguém disse para ele, mesmo sem dizer assim com todas as letras vai continua. Disse. Disseram. 
Lembro de gente me dizer que nunca tinha lido, e que iria começar a ler mais. 

Os que mais me lembro, me marcaram Paulão meu mestre, João Paulo vários rolês , Daniel... sério, lia concentrado, acho que o mais ansioso pelo final, Mário doido, doido, doido. A memória traz esses nomes como quem abre uma porta enferrujada e deixa entrar luz e cheiro de passado.

Comecei a terminar o meu livro aqui hoje, no conforto do meu lar, comecei falando de BDSM e, quando vi, estou de novo num hospital público, sentado numa cadeira ruim, escrevendo à mão, esperando alguém voltar do almoço para perguntar da próxima página.

Talvez eu sempre tenha escrito sobre a mesma coisa.

Desejo.

Fuga.

Vergonha.

Poder.

Afeto.

Dependência.

Tentativa de ser visto.

Tentativa de não morrer por dentro.

Eu só não sabia ainda.

Depois a vida veio e não veio nem um pouco fácil.
Nela vem balcão, forno, hospital, cozinha, comércio, rua, madrugada, mesa de bar, ônibus, marginal, poema escrito onde dava, filha no colo, culpa no peito, falência, golpe, traição, paternidade torta, amor errado, depressão, dependência, recuperação, conversa difícil e essa vontade insistente de arrumar com palavras aquilo que a vida quebra sem pedir licença. 

Eu não passei a vida só lendo para escrever.

Eu fui viver.

Li também, li muito, mas fui viver essa vida agulha traiçoeira, essa vida lâmina fria, filha da puta que rasga a gente e depois ainda exige que a gente faça sentido com os pedaços. Virei segurança, pizzaiolo, garçom, vendedor, gerente, empresário, dono de pizzaria, varri chão, servi mesa, segurei paciente psiquiátrico, ouvi conselho de gente simples, ordem de gente burra, quebrei, levantei, acreditei em gente errada, perdi, recomecei, fui pai sem saber ser pai e tentei ser melhor do que eu conseguia ser com as ferramentas ruins que a vida tinha me dado.

A dependência química ainda jovem, me jogou no fundo do poço e, de algum jeito torto, me empurrou para o aconselhamento terapêutico, para o estudo da mente humana, para a escuta, para tentar entender por que a gente se destrói procurando alívio.
Anos depois, já limpo e tento sucesso em outros ramos de atuação, depressão me fez parar caminhos que eu achava que eram minha vida e me devolveu para essa mesa, para essas horas, para essa escrita mais nua, mais baixa, mais minha. Eu não romantizo nada disso. Fundo do poço não é aula de poesia. Depressão não é musa. Mas eu seria covarde se fingisse que algumas portas da minha vida não abriram depois que outras desabaram.

Malditos humanos.

Eu amo vocês.

E vocês me destroem sempre o suficiente para que eu faça arte com isso.

Eu não escrevo para pedir licença dentro de biblioteca cheia de gente chata.
Escrevo para quem lê no intervalo, no banheiro, na cama, no ônibus, depois da briga, antes de dormir, no meio da crise, entre um boleto e outro.
Escrevo para quem trabalha cansado, ama errado, volta para casa se sentindo ninguém, sente vergonha da própria vida e mesmo assim continua. Escrevo para você poder ler e entender essa merda de vida que quase ninguém fala sem enfeitar e sem omitir que fez merda. Gritando de dentro da piscina gelada que a agua está quente e confortável pra ver se alguém também pula e vira cumplice da mentira.

E agora, mais de vinte anos depois daquele conto na guarita, estou lançando meu primeiro livro.

Meu primeiro livro.

Não porque eu não tenha escrito antes. Eu escrevo há uma vida inteira.

Mas livro é outra nudez. Assustadora, e olha que a maioria aqui já me viu nu mesmo. 
Livro parece dizer... Agora essa bagunça tem capa e tem seu nome, capítulo, autoria, corpo. Prova. Agora aquilo que escapava em post, poema, blog, conversa comprida e madrugada virou objeto. Virou convite. Virou risco.

E agora tem a Fran.

Essa parceira de loucuras, essa adversária na arte de ter atenção, essa obsessiva caminhando ao lado de um disperso. Dois doidos tentando fazer uma coisa mais doida ainda que é escrever a loucura da própria vida e disponibilizar para a internet inteira ler.

Ela veio com a própria raiva do mundo. Eu vim com minhas ruínas organizadas em parágrafos. No meio disso nasceu um livro.

Um livro que tem BDSM, mas não é só sobre BDSM. Tem ciúme, mas não é só sobre ciúme. Tem sexo, mas não é só sobre sexo. Tem submissão, mas não é sobre desaparecer. Tem dor, mas também tem cuidado. Tem coleira, mas também tem liberdade.

Esse livro inteiro foi escrito basicamente com Chopin no ouvido.

Olha que desaforo.

Um livro sobre desejo, poder, entrega, não monogamia, dominação, ciúme e pertencimento nascendo com música clássica, café, bagunça emocional e duas pessoas tentando escrever sem mentir demais para si mesmas.

Vinte anos escrevendo quase todos os dias, e eu nunca me senti tão nu.

Capítulos um e dois já estão disponíveis.

O link está nos destaques dos Instagrams meu e dela.

Meu primeiro livro está nascendo.

E talvez meu primeiro sucesso ainda esteja lá há 23 anos atrás, sentado numa guarita, com uma caneta na mão, esperando alguém voltar do almoço e perguntar:

“E aí, já escreveu mais?”





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